20 de novembro de 2012

TEXTO ILUSTRADO (E BEM) DE LIMA DUARTE

Ração de combate... melhorada.
Os meus amigos, que tal como nós, tiveram o “previlégio” de andar em zona operacional, lembram-se certamente das famosas “rações de combate”, que nos eram distribuidas quando saíamos para “operação”.  As latas de sardinha, de carne ou de chouriço, as de paté, as frutas cristalizadas, o leite condensado ou achocolatado, o queijo prensado,  os comprimidos de sal (para evitar a desidratação) e, por cima daquilo tudo, as famosas bolachas “capitão”.
Estas então eram qualquer coisa de espectacular, pois bastava uma para encher o estomago. Penso mesmo que não houve ninguém que não tivesse feito a experiência de colocar uma bolacha dentro de uma marmita com água, e aguardar algum tempo até ir ver o resultado. A bolacha crescia, crescia, e ficava quase do tamanho daquelas “carcassas ou casqueiros” (passe algum exagero) que tinhamos no refeitório.
A verdade é que, sempre que saíamos para a mata, lá íamos carregados com rações para o tempo que durava a operação, que podia ser de 3, 4, 5 ou mais dias. Convêm lembrar que na recruta e na especialidade já tinhamos aprendido que só carregávamos o que nos interessava ( sem que fosse descriminação, as latas de sardinha ficavam invariavelmente para trás), pois o peso a transportar era bastante razoável, e havia que palmilhar muitos quilómetros de montes e vales,  levando apenas o essencial.
Ora, é certo e sabido que, comer sempre a mesma coisa, acaba por saturar. Tentávamos enganar o apetite e, quando em campanha, lá íamos assando um “chouricito”, para desenjoar mas, a partir de certa altura, o pensamento voava para a messe e para uma refeição quente, apesar da variedade não ser muito grande, o que obviamente estava fora de hipótese... e do nosso alcance.
Só que, o velho aforismo castrense lembrava-nos a cada instante que «a tropa manda desenrrascar». Ainda por cima, os outros dois “furrias” do meu pelotão, para além de grandes companheiros, não eram nada avessos a um bom petisco ou, porque não, uma refeição com todos os “matadores” (e aqui estou a lembrar-me de uma operação ao Luaia).
Acontece que estávamos de partida para mais uma operação, penso que para o rio M’bridge, quando soubemos que o almoço da companhia, no dia seguinte, ía ser  bacalhau.
Feito o nosso “briefing” operacional, já noite dentro, juntámos-lhe uma adenda de contestação, pois não teríamos hipoteses de saborear o “fiel amigo”, que diga-se, andava há muito arredado das nossas bocas (nem sei mesmo se, tirando a consoada, esta não seria a segunda ou terceira vez em que ele ía marcar presença no “rancho”).
A carne com batatas, a carne com massa, a carne com arroz, o arroz com atum (Na Companhia, o rancho era igual para todos e às vezes era preciso o gerente de messe equilibrar as contas pois a gestão da mesma não podia dar saldo negativo – lembram-se que não se podia gastar mais do que uma verba irrisória, por cabeça, a cada refeição -  não me recordo se seria 1$25, pois a minha gerência de messe, fez no mês de Outubro  43 anos) e ainda por cima,  a “promessa” de irmos comer ração de combate, nos dias seguintes, levou-nos a ponderar a situação.
De tal forma o fizemos, que entendemos realizar o reconhecimento do terreno, descobrindo a “selha” onde o bacalhau estava a demolhar e, num ”golpe de mão” perfeito, pescámos cada um a nossa posta do, agora sim “fiel amigo” e lá fomos fazer a última revisão ao material, conscientes que desta vez a ração de combate estava mesmo melhorada.
De madrugada, ainda deu para passar pelo forno do pão, pegar nalguns “papo-secos” e arrancar com a moral em alta. Depois, lá deu para escolher o dia (que não podia esperar muito) e comer uma postinha de bacalhau, em plena base táctica. Sem peso na consciência, apesar de,  no dia seguinte, segundo relatos posteriores, o nosso bom e querido amigo “Vago Mestre”, ter andado algo aflito, ficando na dúvida se se tinha enganado a contar as postas do dito cujo. Teve então que chamar pelo menos “três” reservas à equipa principal e, quando alguns dias depois  regressámos à base,  para que a malandrice não caisse em saco roto , lá veio tentar tirar “bacalhaus da púcara”.
-  Foram vocês!
- «Fomos nós o quê»?  Ripostámos, fazendo a cara mais angelical que nos era possível, fartinhos de saber ao que ele se estava a referir.
- O bacalhau!
- Qual bacalhau? Não nos digas que guardas-te alguma coisa para nós!
- Qual quê, faltaram-me três postas de bacalhau, no dia que sairam para a mata, e só podem ter sido vocês.
Negámos, embora já a sorrir, rematando.
- Pronto pensa o que quiseres,  que o pessoal daqui a pouco na messe,  com umas cervejolas pelo meio, já esclarece isso.
Claro que ficou tudo esclarecido, pelo companheirismo e amizade que nos unia, acabando com umas boas gargalhadas.
PS. Nesta peça de ficção, podem substituir o bacalhau por peixe, marisco ou outro produto qualquer,  que naqueles tempos possa ter alimentado a vossa imaginação.
Lima Duarte

OLIMPIO PINTO E A SUA POESIA


MULHERES
- Mulher bonita, sensível e inteligente - é perigo!
- Mulher bonita, sensível e burra - é mãe solteira.
- Mulher bonita, insensível e inteligente - é elegível.
- Mulher bonita, insensível e burra - é fotografia.
- Mulher feia, insensível e burra - é homem!
 
Logo, não há mulheres feias.
 
q.e.d.
 
 
O.A.A.P.

 

PAPEL OU ESTATUTO
No espectáculo da vida, qualquer papel se pode representar - é uma
questão, menor, de habilidade e de versatilidade histriónica do
"artista".
 
Na substância da vida, Estatuto, conquista-se - é uma questão, mor, de
competência e de verticalidade de Carácter do Homem.
 
 
O.A.A.P.
2012

 

NUNCA, NUNCA MAIS ACABOU


Um frio terrível gelou a montanha!
 
 - Não há folha no vale!
 - Não há água que corra!
 - Não há cova que sirva!
 -Não há vida que mova!
 
 O vento não ouve...
 - É branco o silêncio!
 
 À entrada da gruta
 Hesita há um tempo
 Um grupo sedento
 Gelado, esfaimado.
 
 Lá dentro outro grupo:
 Família dorida
 - O macho está ferido
 - Um braço comido!
 Da luta bravia
 C'o a fera vencida!
 
 As crias encostam
 Mantendo o calor
 A fêmea vigia
 Instinto e Amor!
 
 O cheiro é acre e adocicado
 Dos restos, bocados
 Da carne caçada.
 
 Aqueles que estão fora
 Procuram abrigo
 - Lá dentro está quente!
 - Ainda há comida!
 
 A gruta é pequena
 O espaço não chega!
 E a fêmea que rosna
 Sustem os intrusos!
 
 Mas...
 Do grupo faminto
 A fome venceu!
 - O mais corpulento
 - O mais violento
 - Os olhos em fogo
 - Olhar em cobiça!
 Com grito estridente
 Irrompe a direito
 Vibrando o cacête
 - Num golpe certeiro
 A fêmea abateu!
 Os outros o seguem
 Em gritos berrando
 Em roncos uivando
 De pedras na mão
 Batendo com força
 Na fêmea já morta!
 Nas crias que guincham!
 No macho que as cobre
 - O corpo enrolando
 - Os dentes cerrando
 - A boca rasgando
 - Os olhos vidrados
 - Da força da Dor
 - Do medo e pavor
 - Do ódio e da raiva
 - Do terror e da morte!...
 
 Passado algum tempo
 Vincando a ravina
 Rolaram os corpos
 Moídos, esmagados
 Torcidos, vergados
 Horrendos, disformes!
 - Um já não tem braço
 - O outro desfeito
 - E três são pequenos!
 E ficam, rasgados
 Em sangue, em farrapos!
 
 Que signo sinistro!
 Que torvo prenúncio!
 Que nódoa terrível!
 Na neve mais branca!
 No branco mais puro!
 Da Mãe Natureza!
 
 Mas...
 Dos corpos pequenos
 Da morte um escapou!
 O acaso o roubou!
 - Caíu num covil
 - A loba o tomou!
 - À vida voltou!...
 
 E nunca, nunca mais esqueceu!
 E um dia... um dia vingou!
 
 O homem nasceu!
 - A guerra vomita!
 - Uma guerra d'irmãos!
 - Uma guerra maldita!
 
 Que nunca, nunca mais acabou!
 
 
 Olímpio António Alegre Pinto
 Janeiro 1997