6 de outubro de 2012

LIMA DUARTE - TEXTO II

 
A ignorância...  é atrevida
O nosso amigo “Zé” (que não era da fisga),  na verdura dos seus vinte anos, não conhecia o aforismo popular que serve de título a este curto texto.
Consciente das suas responsabilidades, no que respeita aos homens que comandava e ás obrigações militares em campanha, nunca se permitiu facilitar no desempenho das suas funções, procurando que o treino militar recebido e tansmitido pelos Comandos, permitisse atravessar sem perdas humanas a comissão de serviço para a qual foi destacado.
As coisas já não eram bem assim, quando transportadas para o lado individual, isto é, quando se encontrava de folga.  Há contudo excepções, que só servem para confirmar a regra.
Sabendo que ía para o mato, procurou ler o que, para além dos manuais militares, lhe pudesse chegar às mãos, sobre caça e caçadores, julgando-se provavelmente a partir daí, embora talvez inconscientemente, um “especialista” na matéria.
Nessa vontade de viver experiências, que muito provavelmente não voltaria a viver, integrou amiudadas vezes a equipa de caça, chegando algumas vezes a sair do aquartelamento, durante o dia, sózinho (daí ter chegado a um encontro com uma pacaça de “quedes ou sapatilhas”, numa outra situação, que viria a relatar a seu tempo), equipado com uma Mauser (excelentes de precisão) e algumas balas de ponta cortada (mal sabendo ele, na altura, que as balas cortadas, sem qualquer critério, sofriam desvios de direcção. Mas isso aprendeu com a pacaça de “quedes”).
Esta contudo, é outra “estória”.
O pelotão, do qual fazia parte, estava de serviço ao aquartelamento e competia-lhe, para além de garantir a segurança, abastecer a unidade de lenha e água. Ao nosso amigo, a escala de serviço marcava-lhe o abastecimento à companhia (feito por duas secções e por norma numa sequência que levava a carregar água, logo pela manhã, e depois a ida à lenha, na maior parte das vezes, à tarde).
Manhã cedo, saiu a coluna (dois Unimogs, vulgo “burro do mato”, para segurança,  e uma Berliet, carregada com bidons de 200 lts. para encher de água) a caminho do ribeiro onde se fazia o abastecimento, situado num pequeno vale pouco pronunciado. A iniciar a descida foi avistada uma pacaça (1) a beber numa pequena lagoa, que ficava fora do arvoredo subjacente ao ribeiro.
Naquele dia, no entanto, vá lá saber-se porque razões, a vontade de caçar do Zé, não era nenhuma. O pessoal contudo insistiu e ele acabou por aderir à ideia, permitindo que três dos seus camaradas fossem tentar apanhar o animal, (um deles levando a G3 do Zé e deixando a FN de cano reforçado)enquanto os restantes, com as viaturas paradas, ficavam no alto a ver o que a caçada dava.
A aproximação foi feita, os disparados sucederam-se, mas o animal não caiu, fugindo em direcção à “picada”.
Os carros arrancaram então para tentar interceptar a pacaça, só que esta enfiou-se na mata, deixando contudo um rasto de sangue, onde era visível muita espuma. O animal estava ferido e, “pelos livros”, devia ser nos pulmões, pelo que «teria morte mais ou menos certa, dentro de algum tempo».
Aqui, o nosso amigo entusiasmou-se, porque terá pensado, «o animal vai morrer e é um benefício para o pessoal, que pode comer carne de caça fresca» e ao mesmo tempo, na dúvida, reconheceu para com os seus botões, que «era um perigo deixar à solta um animal ferido, capaz de matar quem se lhe atravessasse no caminho».
Pensou e lançou mãos à obra. De FN na mão, mandou avançar os carros para o abastecimento, distribuiu a segurança, entregou o comando ao cabo mais antigo e lançou-se  na perseguição da pacaça, com mais três soldados, P....; B.... e X... .
Ainda avistou o bicho, depois de subir uma pequena árvore, mas o local, precário, não lhe permitiu atirar e a pacaça embrenhou-se na mata. Seguindo o rasto, cada vez mais convencido que o animal não iria longe, entraram num caminho de pé posto, que mais à frente se bifurcava, havendo sinais de sangue para os dois lados.
O animal selvagem, acossado, mostrava instinto de conservação e quiçá inteligência, criando uma armadilha, camuflando-se de tal forma que a escassos três ou quatro metros não se conseguia descortinar.
Na dúvida, sem saber ainda o que o esperava, decidiu dividir as “tropas”, indicando que deviam ir dois para cada lado.
O avanço não foi nenhum, ele foi para a esquerda, o P...,  foi para a direita, e não tinham dado dois passos, quando se ouviu um barulho do lado direito. Mais rápida do que o pensamento, a pacaça avançava sobre o P...  e, tudo aconteceu num relâmpago.
Este (baixinho) gritou e recuou,  por felicidade (só reconhecida depois), tropeçou numa raíz, caindo de costas, no preciso momento em que a pacaça investiu. O nosso amigo virou-se viu o bicho a investir e meteu bala na câmara, disparando por instinto sobre a pacaça. Só que a arma encravou. Voltou a repetir a operação, já com o bicho em cima, tentou novo disparo  mas a FN voltou a encravar.
Entretanto, ao cair, a arma do soldado P... disparou-se  enquanto o bicho flectiu na direcção do nosso amigo, que só teve tempo de se encostar ao capim, fazendo uma “chicoelina” para escapar à marrada.
Os dois que vinham atrás, B.... e X.... mal sentiram o movimento do animal, viraram as costas e fugiram. Aperceberam-se depois que a pacaça corria num trilho ao lado do deles (fugiam lado a lado) e vai de atirar rajada para cima do animal, gritando que ele tinha caído mais à frente.
Dez metros atrás, o amigo Zé procurava raciocinar, na medida do possível, tentando descobrir o P..., enquanto pensava «estou f...». «O homem a esta hora está com as tripas de fora, tenho que pedir evacuação e depois como é que vou explicar esta m...». Pior, «o filho da p... do bicho matou-me o soldado».
- Oh P...; oh P..., gritava o “Zé”, aflito, enquanto olhava ao redor e para cima das árvores, para ver se via o companheiro.
De repente, atrás de si, ouviu umavoz meio sumida a responder.
- Estou aqui!
- Estás ferido? Perguntou de imediato.
- «Não», respondeu o P... ,  enquanto se punha a pé e descia as calças para ver se tinha alguma ferida, explicando  «a pacaça, ao passar por cima de mim, pisou-me os tomates e isso é que me doi».
 O nosso amigo remirava o P... para ver se via sangue,  tranquilizando-se lentamente,  enquanto perguntava «estás mesmo bem?»
Lá atrás o silêncio era dominante.  Até que B...voltou a gritar, « a pacaça está aqui morta».
Foram para trás e a verdade é que o animal lá estava caído. Só que, numa inspecção imediata o Zé constatou que, depois de tantos tiros, o bicho apenas tinha dois furos.
Um que lhe tinha atravessado as bochechas e tinha sido o causador de tudo aquilo, pois a espuma era proveniente da saliva e não dos pulmões, como julgava o expert de caça.
O outro,  que foi a causa da morte, era um furo de bala que entrou por baixo do pescoço e saiu pelo crânio, e que tinha sido disparado por  P..., quando se desequilibrou e caiu de costas no trilho.
No final, terá ficado um susto e a lição (mais uma) para recordar, e um inchaço nos tomates, que obrigou o P... a andar de perna aberta, durante quinze dias. 
Lucunga, ( a data que entenderem).
(1) Pacaça: mamífero ruminante  e selvagem, semelhante a um touro (para eventuais leitores que nunca tenham visto nenhuma, «dá uns bifes excelentes»).
*Conto ficcionado, com alguns laivos de veracidade, no enquadramento geográfico. Qualquer semelhança com a realidade, é pura coincidência.
**O autor está em desacordo com o Acordo Ortográfico. Por isso, escreve à moda antiga, e em vernáculo militar.
Lima Duarte
 
 
 
 

3 comentários:

Raul disse...

Amigo e companheiro Lima Duarte,gostei de ler este episódio, e se bem mae recordo foi o nosso companheiro Joaquim Lima da Silva, que a pacaça lhe passou por cima, e tal como eu era dos metropolitanos.Envio um grande abraço.Sousa «Fafe»

C. Fonseca disse...

Caro Lima Duarte,

Estive em Lucunga de Janeiro de 1965 a Fevereiro de 1966, e também participei de algumas caçadas, mas no meu caso sem percalços, em grande parte devido às dicas que me foram dadas (bem como a outros camaradas) pelo civil Sr. Santos, que nos acompanhou algumas vezes.

E uma das primeiras coisas que nos disse foi que se feríssemos uma pacaça, e lhe perdêssemos o rasto, não só devíamos desistir dela, mas também que nos acautelássemos, por causa das "emboscadas" que elas armavam.

Quanto à FN encravada também tive disso. Numa das caçadas apareceu um burro de mato (cuja carne não apreciava muito, mas tudo servia para melhorar a ementa), e quando procurei alvejá-lo, nada. Fi-lo com a arma do camarada do lado, e lá houve rancho melhorado.

Um abraço e continue com as suas interessantes histórias.

Lima Duarte disse...

Caro Fonseca

Agradeço as palavras que deixou e aproveito para lhe dizer que também nós aprendemos alguma coisa com o Sr. Santos. Existe aqui no Blog uma foto em que ele está num jantar connosco. Curiosamente confirmaria mais tarde, algo que ele nos disse na altura e que ainda inexperientes na situação nos deixou em interrogação. Dizia ele que «a carne da tromba do elefante era a mais tenra e que parecia fiambre».
Lamentavelmente desapareceu já no final da nossa comissão de serviço, quando andava na apanha do café, algures na zona entre o Lucunga, M´Bridge e Chimacongo, supostamente apanhado por gentes do grupo "Pedro Afamado". Fizemos várias batidas na zona - guiados por dois trabalhadores que tinham estado com ele e tinham aparecido na Companhia fugidos do eventual ataque - andámos por lá alguns dias mas sem resultado. Encontrámos apenas a carrinha e julgo que com alguns sacos de café.