24 de outubro de 2011

OLIMPIO PINTO - UM AMIGO DA C.CAÇ.106



A Nobreza e a Vilania

- Foi em mil novecentos e sessenta e quatro, princípios de Novembro.

Para todos os cadetes da Academia Militar, tinha sido sorteado um único
bilhete de entrada para o espectáculo de estreia da temporada de ópera do
Teatro São Carlos, em Lisboa.

A sorte calhou ao cadete-aluno n.º 677. Este, na ante-véspera do dia da
estreia, fora punido com onze dias de detenção (por trajar à civil sem o
competente passaporte). Cumprir pena de detenção significava a total
impossibilidade de ausência do quartel (o da Amadora). O nosso cadete, no
entanto, (e por razões que só ele saberá explicar), bem a tempo de chegar a
horas do início do espectáculo, vestiu o uniforme n.º 1, colocou a faixa
bordeaux, capote por cima para a esconder, meteu as luvas brancas e o
francalete dourado nos bolsos (traje de cerimónia era exigido) e, como
“de costume”, calmamente, saiu pelo buraco que dava para a estrada
e foi apanhar o comboio para o Rossio. Em frente ao Pique-Nique chamou um táxi
para o São Carlos (não seria de bom tom aparecer a pé à porta do Teatro). Pelo
caminho, substituiu o francalete e trocou de luvas… Saindo do táxi, na
primeira coisa em que reparou foi em… cinco (!) Rolls Royce estacionados
à volta – o primeiro, próximo da entrada, era o da P.R. (Américo Tomás).

No ambiente luzidio da pós entrada, tudo era muito interessante,
solene, e muito divertido, claro, - quase todos de casaca, alguns de smoking,
as senhoras de vestido comprido, até aos pés, diamantes nos peitos escorridos e
secos dos grandes decotes… pequenas conversas, apenas murmuradas…
muitos baixares de cabeça e sorrisos discretos… o nosso Marechal
(Craveiro Lopes) na fila à frente (afinal não era nada alto)… ninguém com
menos de quarenta ou cinquenta anos (?!)… excepto o inefável trintão (?)
Carlos Eugénio (o Barros Vidal)… e, claro, o nosso nóvel e muito honrado
Candidato… … dez escudos para comprar o
“libretto”… (os últimos dez, no bolso, eram para recuperar o
capote, no bengaleiro, - (pequenas fortunas)…

A ópera era a “Cosi Fan Tutte” do Mozart… em
italiano… a música era bonita… a “gritaria”… um
pouco “estridente”, mas… tinha piada! Todos estavam muito
apreciadores, circunspectos e compenetrados… o nosso cadete também…
fez muito por isso! (Noblesse oblige)! … Tudo corria bem!...

Surgiu o intervalo (intermezzo)… o nosso cadete passeava no
”foyer”, apreciando a “entourage”… De repente, um
porteiro aproximou-se, pressuroso, e disse-lhe ao ouvido que, alguém, lá fora,
queria falar-lhe. O cadete foi até às arcadas e, mal lá chegou, viu alguém a
esbracejar do outro lado do largo (?!!!)… Apesar da meia sombra,
reconheceu-o logo – era um Camarada (!) que lhe gritou, bom som, mas em
surdina – “É pá!!! Já há mais de uma hora!!! Tocou a detidos!!!
Caraças!!! – O cadete fez-lhe um aceno bem forte e bem firme e…
viu-o desaparecer em corrida rápida pelo passeio fora da Serpa Pinto…
… Faltar ao toque de detidos, era mesmo grave!... Mas, por razões várias
(e que só o cadete saberá explicar) assistiu ao espectáculo até ao final, e,
também, aos curiosos salamaleques das prolongadas, atentas e veneradas
múltiplas despedidas dos circunstantes …

O regresso ao quartel foi tardio, mas rotineiro e pacífico…
apesar do buraco!







- Foi vinte anos depois.

Tinha terminado uma aula
num curso de licenciatura da F.L. da U.L. Meia dúzia de colegas tinham ficado e
comentavam o facto de, por razão de um mal entendido, um professor catedrático
ter ficado com muito má impressão de um outro colega (ausente) e que, tal facto,
teria, necessariamente, efeitos negativos e, eventualmente, prejudiciais e
completamente injustos para o colega em questão. Um dos presentes
sugeriu que todos se
juntassem e fossem esclarecer o assunto, falando com o professor. Um pouco à
parte estava outro colega (o L.M.) já finalista, que tinha ouvido a conversa
mas nela não participara. A este foi perguntado por um dos presentes: -
“Também vens?” …???... Ele, seco, respondeu: -
“Não!” - … (!!!)… Perante o espanto, displicente,
rematou (“ipsis verbis”) : - “Seja o que for que se possa
traduzir em benefício para outrem, é, por definição, prejuízo para mim, logo,
não participo!”





Para alguns, importará
dizer que sair do quartel sem licença, era grave; pelo buraco, era grave e
arriscado… O Camarada saiu clandestinamente, teve que correr para o
comboio, comprar o bilhete, correr até ao São Carlos, passar a mensagem ao
porteiro, esperar, esperar, esperar… até cumprir a missão!... entregando,
em mão, a Carta a Garcia!... Fê-lo anonimamente… lhanamente…
espontaneamente… Naturalmente… Simplesmente… Puro
Espírito… espírito de corpo… comunhão de sentires…
altruísmo… vontade… força e Pundonor! E… CAMARADAGEM!!
………………..

Já há muitos anos que se
varreu da memória o rosto do Camarada… “Com o tempo, tudo muda,
tudo acaba”… Mas… nem tudo passa! Foi um… foi um
Camarada… mas… não foi único… Foram Todos! E a Todos…

Profunda e muito sentida
Homenagem!



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Sobre o segundo facto,
não se faz qualquer comentário.



Olímpio António Alegre Pinto



Agosto de 2010.









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